quarta-feira, 11 de abril de 2012

Governo define índice para desconto de IPI de veículos



Valor 11/04

As montadoras beneficiadas pelo novo regime automotivo, que começará a valer em 2013, poderão descontar do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) o equivalente aos gastos com partes, peças e equipamentos nacionais multiplicados por um índice a ser definido periodicamente pelo governo.

Para 2013, esse índice multiplicador será de 1,3 do valor gasto, informou hoje a secretária de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Heloísa Menezes. "Ainda vamos avaliar o multiplicador dos outros anos" disse.

A medida valerá na fabricação de veículos pelas montadoras instaladas no país. O multiplicador, segundo o ministério, será usado no cálculo de redução do IPI em até 30 pontos percentuais sobre os veículos vendidos no Brasil.

O governo deu um exemplo: se uma montadora usar R$ 1 milhão em componentes nacionais na produção dos carros, esse valor será multiplicado pelo índice de 1,3 fixado para 2013. Isso resultaria, neste exemplo, em um crédito de R$ 1,3 milhão para reduzir a tributação de IPI.

Caso esse valor represente o total da elevação dos 30 pontos do IPI que podem ser abatidos, a empresa conseguiria anular o adicional de IPI. Se for menor, a montadora terá que pagar o valor que falta para completar a carga do imposto.

A indústria automotiva ainda tem dúvidas sobre como será a comprovação do uso de conteúdo nacional e outros pontos operacionais, disse ontem Luiz Moan Junior, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Presente à reunião no Ministério da Fazenda, ele afirmou que as conversas devem continuar em reuniões marcadas com o governo para 25 de abril e 2 de maio.

O cálculo do multiplicador será feito, segundo a secretária do Ministério do Desenvolvimento, com base no gasto total de cada empresa com insumos nacionais na produção de veículos. Carros de uma mesma montadora podem ter taxas de conteúdo nacional diferentes, mas o desconto no IPI será o mesmo para todos os modelos da empresa, explicou Heloísa.

Durante a reunião na Fazenda, representantes do Desenvolvimento fizeram ajustes não divulgados nas regulamentações do novo regime automotivo, que devem ser publicadas até o fim do ano.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Aperto contra importados

Valor 04/04

O governo decidiu elevar em dez pontos percentuais a quantidade mínima de componentes locais (do Mercosul) exigida para veículos produzidos no Brasil. Os que não contemplarem a exigência serão sobretaxados com IPI mais elevado. A medida, que entrará em vigor em 2013, toca numa ferida do setor. Os detalhes não apareceram durante o anúncio do pacote. Mas vieram à tona, numa entrevista da equipe da Fazenda, ao fim da tarde.

O governo também declarou sua forma de calcular de conteúdo local. A regra em vigor no país hoje exige um mínimo de 65% para o veículo ser considerado nacional e, assim, não ser sobretaxado com adicional de 30 pontos no IPI. No cálculo atual, o percentual inclui não apenas peças como outros gastos de produção, incluindo até propaganda. O setor usa, de fato, 45% de peças locais (produzidas no Mercosul), segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

A partir de 2013, o conteúdo nacional passará a levar em conta apenas componentes e o percentual mínimo será elevado em dez pontos, passando para 55%.

Com a medida, o governo atende reivindicação da indústria de autopeças e dos sindicatos de metalúrgicos, que passaram os últimos meses tentando convencer o governo a reformular o cálculo. Mas contraria as montadoras, que evitavam a mudança.

O novo regime automotivo embute a boa intenção do governo de aproximar o nível de desenvolvimento tecnológico das filiais brasileiras de seus países de origem. Essas empresas terão de investir o mínimo de 0,15% da receita operacional bruta em inovação em 2013 e 0,5% em 2017. Está previsto também aumento no número mínimo de processos fabris. O incentivo vai vigorar entre 2013 e 2017

O programa não é, no entanto, ainda claro sobre mecanismos a serem adotados não só para aplicar as novas regras como também fiscalizar o cumprimento das exigências atreladas aos benefícios fiscais.

A equipe econômica deverá ter muito trabalho, daqui para a frente, para organizar os detalhes ainda não totalmente esclarecidos, como o formato das cotas de importação para as empresas com planos de produzir no país.

O tratamento para esse período de transição era o mais aguardado pelo setor porque já empresas que já iniciaram o processo de construção de novas fábricas - como as chinesas Chery e JAC e a coreana Hyundai - e outras que esperavam o novo regime para anunciar novos projetos industriais, como BMW e Chrysler. Para esse grupo, foi preciso também criar uma forma de compensar o aumento de IPI.

A solução encontrada pelo governo será a geração de créditos tributários durante a construção de uma nova fábrica. Esse crédito, que se refere aos 30 pontos percentuais adicionais nos carros com conteúdo local inferior a 65% hoje, ficará limitado à metade da capacidade de produção prevista no projeto. Mas a forma de calcular capacidade na indústria automobilística é infinita. Número de turnos, produtividade, características dos veículos e quantidade de processos repassados a terceiros são alguns dos referenciais usados.

Os dirigentes do setor passaram o dia em reuniões e apenas as entidades representativas se pronunciaram por meio de notas. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) considerou a adoção do novo regime automotivo "positiva como fator de valorização da produção nacional, de estímulo à inovação e desenvolvimento tecnológico e incremento dos investimentos da indústria automobilística no país". "O Sindipeças apoia qualquer ação governamental que valorize a indústria instalada no Brasil e amenize os efeitos de políticas econômicas que tiram nossa competitividade de um dia para outro, sem que possamos reagir", disse, em nota, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Autopeças, Paulo Butori.

Os importadores de marcas sem planos para construir no país adiaram uma posição para hoje. O grupo, representado pela Associação Nacional das Empresas Importadoras (Abeiva), não foi atendido no pedido de ter uma cota de 180 mil veículos por ano sem a taxa adicional de IPI.

Já em Santa Catarina, o governador Raimundo Colombo (PSD), avaliou que o anúncio foi "muito importante" para o Estado e que poderá destravar negociação com BMW. A BMW aguardava as novas regras. Em recente entrevista ao "Diário Catarinense", o presidente da BMW no Brasil, Jörg Henning, disse que a empresa queria, durante a fase entre o compromisso de erguer uma fábrica até o início da produção, uma flexibilização do IPI. As declarações iniciais servem para mostrar que as empresas ficaram satisfeitas com as medidas. Resta ao governo organizar as mudanças que podem, definitivamente, assegurar ao Brasil posição de destaque entre os maiores fabricantes de veículos do planeta.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Novo acordo automotivo com México é oficializado

FSP 30/03

A revisão do acordo automotivo entre Brasil e México, fechado neste mês, foi oficilializado nesta sexta-feira, com a publicação no "Diário Oficial da União".

Foram estabelecidas cotas de exportação de veículos por três anos. Depois disso, os dois países devem retornar ao regime de livre comércio.

O México poderá exportar US$ 1,45 bilhão em veículos ao Brasil até a 18 de março de 2013. De 19 de março de 2013 a 18 de março de 2014, esse valor subirá para US$ 1,56 bilhão. Na sequência, de 19 de março de 2014 a 18 de março de 2015, a cota passará para US$ 1,64 bilhão. Depois dessa data, não haverá mais limite para a exportação.

Além disso, Brasil e México concordaram que os mexicanos aumentem a proporção de peças da América Latina em seus carros de 30% atualmente para 40% em um prazo de cinco anos, sendo: 30% a partir de 19 de março de 2012; 35% após 19 de março de 2013; e 40% a partir de 19 de março de 2016.

Segundo o texto, entre 19 de março de 2015 e 18 de março de 2016 os dois países examinarão a a possibilidade de aumentar essa proporção para 45%.

PERCENTUAL

No Brasil, esse percentual é de 65%. Como desde dezembro do ano passado os carros importados pagam 30 pontos percentuais a mais de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para entrar no mercado brasileiro, o raciocínio do governo é: de que adianta barrar a entrada de importados se os mexicanos, que não estão sujeitos à alta do imposto, exigem um percentual tão menor do que o Brasil?

O Brasil pediu a revisão do acordo automotivo depois que as exportações de carros do México saltaram cerca de 70% em 2011.

As concessões do México ficaram próximas daquelas que eram solicitadas pelo Brasil. No ano passado, os mexicanos exportaram US$ 2,4 bilhões em automóveis ao mercado brasileiro.

A disputa estava deixando as relações entre as duas maiores economias da América Latina tensas, em um ambiente de cada vez mais medidas de protecionismo.

Os países desistiram de incluir no acordo automotivo com o México veículos pesados. O texto publicado nesta sexta-feira afirma que Brasil e México farão "consultas relativas a veículos pesados, para atingir acesso recíproco e a homologação de normas técnicas e ambientais".



Em parceria com a Fiat, Chrysler volta ao país

Valor 30/03

A Chrysler voltará a produzir veículos no Brasil. O investimento poderá ser feito dentro de uma fábrica da própria Fiat, empresa que assumiu o controle da montadora americana depois que o governo dos EUA concedeu um empréstimo para salvá-la da falência. Segundo Sérgio Ferreira, o executivo nomeado pela Fiat para comandar a Chrysler no Brasil, os detalhes da operação dependem, agora, da política industrial a ser fixada no novo regime automotivo, a ser anunciado pelo governo nos próximos dias.

Detalhada por Ferreira, a estratégia do grupo não deixa dúvidas de que a opção pela produção local atende não só o mercado em expansão como a pressão do governo federal, que a cada dia aperta mais o setor, por meio de impostos e sistema de cotas, como tentativa de reduzir a importação. "Nenhuma das últimas medidas adotadas pelo governo favorece a importação; não conseguiremos ser competitivos se não produzirmos no Brasil", diz o executivo, que esta semana já teve uma reunião com o chefe de manufatura da Fiat para acertar os planos de produção. "Vamos ter produção local", destaca. O prazo para veículos Chrysler brasileiros chegarem ao mercado não está totalmente definido.

A lógica indica que a cidade de Goiana, em Pernambuco, pode a ser o destino do investimento da Chrysler. É nesse município que a Fiat começou a erguer a fábrica que consumirá investimento de R$ 4 bilhões e que aproveitou a última fase de benefícios fiscais de estímulo para o deslocamento da atividade automobilística para o Nordeste e Centro -Oeste. Fontes no governo confirmaram a existência de novos entendimentos com o grupo para acomodar a Chrysler em Goiana.

A Chrysler pode ser uma forma de Pernambuco compensar a perda do investimento de nova fábrica da Volkswagen, plano que chegou a ser discutido com o governo pernambucano. Negociações com o sindicato dos trabalhadores acabaram levando a Volks a optar pela ampliação da fábrica de Taubaté (SP). (Ver matéria abaixo).

Assim como a decisão do grupo Volks de ampliar a produção no Brasil o ajuda a avançar rumo à meta de ser líder mundial em 2018, também a expansão da Fiat, incluindo agora a Chrysler, representa mais um passo do plano de Sergio Marchionne, presidente mundial do grupo, de buscar alternativas à crise na Europa para estar entre os maiores grupos de fabricantes de veículos do mundo.

Ferreira não revela pistas das características do veículo que será fabricado no país, nem tampouco o volume de produção. Ocultar o tipo de veículo é estratégia de qualquer montadora. Já o tamanho da atividade, o executivo faz questão de ressaltar, está condicionada às regras que o governo determinará no novo regime automotivo. De qualquer forma, os volumes de produção de um veículo da Chrysler, que atua em faixa de preços mais altos - o mais barato vendido hoje no Brasil custa R$ 100 mil -, serão bem menores que qualquer meta da Fiat. A montadora italiana pretende produzir em Goiana mais de 200 mil carros por ano, a partir de 2014.

Acomodar uma linha de produção de um ou dois modelos Chrysler na gigantesca área, de 1,2 mil hectares, que a Fiat ocupará em Goiana é mais simples do que encaixar mais essa atividade na fábrica da Fiat em Betim (MG), que já foi inúmeras vezes reformulada para ampliar produção. Além disso, a localização no Nordeste simplifica o natural intercâmbio comercial com a região do Nafta, um velho sonho da Fiat.

Ferreira, um economista carioca que assumiu o posto, sem alarde, há um ano, está a cargo, agora, de preparar rede de revendas para o grande salto que a marca quer dar no Brasil com a decisão de produzir no país.

Uma das ações mais importantes foi a recente abertura de dois centros de distribuição de peças de reposição - um em Louveira (SP) e o outro na Argentina. Também essa ação foi cercada de discrição. O empreendimento em Louveira tem 4,5 mil metros quadrados e o de Buenos Aires, 3 mil. Com espaço adequado para armazenamento de componentes, a marca toma fôlego para o passo seguinte: a expansão da rede de concessionárias. Há hoje no Brasil 33 pontos de venda da marca americana. O plano é chegar a 50 este ano e até 120 até 2014.

Ter uma rede estruturada é um importante para qualquer marca de veículos se fixar num país. Mas no caso da Chrysler, o assunto é complexo. Somente agora a marca está conseguindo ter rede própria, separada da Mercedes-Benz. Essa é a última etapa de um longo processo de divórcio entre o grupo americano Chrysler e o alemão Daimler, unidas de 1998 a 2007.

É também da época desse casamento a segunda tentativa da Chrysler de produzir veículos no Brasil. Entre 1998 e 2001, a montadora americana fabricou a picape Dakota, em Campo Largo (PR). Ao desistir, teve de devolver incentivos fiscais. A primeira fábrica Chrysler no Brasil é da década de 60.

Agora, poucos meses depois que a Fiat elevou a participação acionária na Chrysler de 53,5% para 58,5%, com o governo americano ainda como sócio, a marca ganha fôlego para os planos de expansão nos países emergentes.

Já Ferreira começa a viver um velho sonho, de trabalhar na indústria dos automóveis. Sua carreira no setor já começou na fabricante de pneus Michelin . À época, a multinacional francesa o deslocou do Rio para comandar as filiais da Argentina e, depois, Grécia. Em 2008, foi contratado pelo grupo Fiat para assumir o comando da Case New Holland, a divisão de máquinas agrícolas, na América Latina. Ele mudou-se, então, para Curitiba e, depois, para São Paulo.

Agora no cargo de diretor geral da Chrysler, instalado no alto de um suntuoso edifício na Vila Olímpia, Ferreira cuida dos planos imediatos de elevar as vendas de 5,6 mil veículos em 2011 para 12 mil este ano. O lançamento de seis modelos somente no primeiro semestre pode ser uma boa explicação para a meta ambiciosa. Os volumes são baixos se comparados com o gigantismo da Fiat. Mas vencer com uma marca de luxo no mercado no qual já é líder é estratégico para a montadora italiana.

É também difícil entender como uma marca que traz apenas um modelo do México e todos os demais dos Estados Unidos e Canadá conseguirá dobrar vendas com o aumento de IPI em 30% para importados fora do Mercosul e México. Por enquanto, a empresa absorve boa parte desse custo adicional. Crescer é mais urgente.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Carros do Japão voltam para o futuro



Por Chester Dawson
The Wall Street Journal, de Yokohama, Japão

As montadoras japonesas estão dando marcha a ré na história para transplantar para alguns de seus novos produtos um pouco das glórias passadas. A estratégia está tirando do baú marcas aposentadas há décadas, tentando apelar para a nostalgia e reduzir os custos de marketing.
Para sua nova linha de veículos voltados para os mercados emergentes de rápido crescimento, a Nissan Motor Co. não precisou de estudos preparados por um exército de consultores, de grupos focais ou advogados de propriedade intelectual. Em vez disso, a segunda maior montadora do Japão recorreu à sua história e ressuscitou a marca Datsun, que havia sido descontinuada no início dos anos 80.

Executivos da Nissan dizem que a decisão foi fácil, dada a reputação da marca de resistência e confiabilidade, além de um preço acessível. Eles esperam que todas essas qualidades se transfiram para a nova linha, que não será vendida nos mercados desenvolvidos.

"A Datsun faz parte do nosso patrimônio. Sabemos como essa marca foi forte em alguns mercados", disse o franco-brasileiro Carlos Ghosn, diretor-presidente da Nissan, numa entrevista coletiva esta semana. "Para os jovens, lançar a Datsun ou outra marca dá no mesmo, porque eles não se lembram dela. Então, por que não a Datsun? Eu diria que é melhor relançar a Datsun que [escolher] uma nova marca."
A Nissan não é a única montadora japonesa a explorar seu patrimônio histórico em busca de um novo produto. Esse movimento "de volta para o futuro" ocorre num momento em que a indústria automobilística do Japão, até há pouco tempo uma líder mundial, tem perdido parte de sua força para rivais americanas e europeias.

Tanto a Toyota Motor Corp. como a Honda Motor Co. e a Mitsubishi Motors Corp. apresentaram, nos últimos meses, novos modelos com nomes impregnados de nostalgia. Os especialistas em marketing dizem que essa estratégia faz sentido numa época em que a criação de uma identidade para um produto a partir do zero é cara e corre o risco de ser rejeitada pelos consumidores.

"Estabelecer qualquer novo nome para uma marca ou modelo é uma empreitada extremamente cara, diz Bob Peterson, um veterano de marketing da indústria automobilística e diretor da Wickaboag Consulting Group Inc., consultora com sede em Tóquio. Se uma empresa "tem algo de seu passado que contribui positivamente, faz muito sentido tirar o pó e trazê-la de volta", diz ele.

A Toyota vai lançar no próximo mês, no Japão, uma versão modernizada de seu carro esportivo Corolla Levin, também conhecido como Trueno Sprinter, um modelo que ela deixou de produzir em meados dos anos 80.

"Isso preserva o DNA da Toyota no setor de carros esportivos", disse o presidente da montadora, Akio Toyoda, em uma entrevista coletiva em novembro.

A Honda, por sua vez, está aproveitando sua reputação como empresa inovadora num esforço para recuperar força no segmento de luxo. A montadora planeja ressuscitar seu carro esportivo NSX, que lançou pela primeira vez em 1990, para ajudar a impulsionar as vendas da sua combalida divisão Acura.

"O Acura NSX se tornou um ícone", disse o diretor-presidente da Honda, Takanobu Ito, no relançamento do carro em janeiro, no Salão de Automóveis de Detroit. "Desde que a produção do NSX foi encerrada em 2005, temos batalhado para criar um sucessor à altura."

A Mitsubishi Motors vai relançar o seu compacto Mirage no dia 28 de março na Tailândia, antes de apresentá-lo a outros mercados do sudeste asiático e, posteriormente, Japão e Europa. O modelo chegou às concessionárias pela primeira vez nos anos 70 e desapareceu em 2003. Hoje, ele tem desenho, motor, e medidas de segurança do século XXI.

Os analistas da indústria dizem que os fabricantes japoneses não têm a mesma tradição de muitas marcas americanas ou europeias, mas querem aproveitar ao máximo sua história à medida que entram em novos mercados e competem com novos rivais da China, Coreia do Sul e outros países. É por isso que as montadoras japonesas estão ansiosas para reciclar marcas de carros que têm pouca ou nenhuma semelhança com os modelos atualizados.

"Elas estão tentando apelar à boa-vontade do consumidor, mesmo que os carros não se pareçam em nada com seus antecessores. É mesmo só o nome", diz Takao Kijima, professor da Universidade de Ciência de Tóquio e ex-engenheiro da Mazda Motor Co. "A Datsun é um exemplo perfeito de um nome que é visto pelas pessoas de uma forma positiva."



terça-feira, 20 de março de 2012

Por favor, não perturbe; estou ao volante

Valor 20/03

Faz dez meses que Jorge Mussi, diretor de pós-vendas da Volvo Cars voltou a morar no Brasil, depois de uma temporada de dez anos na Suécia. Desde que regressou, o executivo tem mantido a rotina de ajustar os comandos de seu automóvel para que chamadas telefônicas e sistema de navegação sejam sempre acionados pela sua voz, como fazia na Europa. Agora, porém, sobra muito mais tempo para conectar-se ao mundo enquanto está dentro do carro. Em Gotemburgo, ele gastava exatos seis minutos de casa até o trabalho. Em São Paulo, precisa de uma hora e meia.

Os contrastes que envolvem tecnologia dos veículos, condições das estradas e trânsito frequentemente aborrecem quem compara a realidade brasileira com as de países desenvolvidos. Mas diferenças no comportamento dos motoristas revelam detalhes ainda mais chocantes. No Brasil muitos usam sistema de conexão chamado "hands free" (mãos livres) porque a legislação proíbe utilizar celular. Já na Suécia, o uso do aparelho é livre. Mas as autoridades não precisam se preocupar com isso porque, em geral, faz parte da cultura dos suecos dirigir com prudência, com as duas mãos ao volante.

A Suécia sempre foi referência em segurança e os maus hábitos no trânsito não são exclusividade brasileira. A frequência de acidentes que supostamente teriam ocorrido por distração com o uso de celular tem provocado constantes debates nos Estados Unidos, onde a legislação varia em cada Estado.

Para os especialistas e representantes da indústria, proibir não é a solução. "As pessoas não ficarão desconectadas em um mundo conectado", disse recentemente Alan Mulally, presidente mundial da Ford, que já instalou sistemas de comando de voz em mais de 4 milhões de veículos nos EUA. "A tecnologia tem de ser a solução e não o problema", afirmou Mulally.

No Brasil, a discussão é ainda mais complexa. Primeiro porque a legislação não acompanhou o avanço tecnológico. O atual Código Brasileiro de Trânsito é de 1998, quando o país ainda não tinha acesso ao sistema "bluetooth", que permite falar ao telefone por meio de viva voz, utilizando o sistema de som do próprio carro. O artigo 252 do código prevê multa e quatro pontos na carteira de habilitação a quem "dirigir o veículo utilizando-se de fones nos ouvidos conectados a aparelhagem sonora ou de telefone celular".

Apesar de o próprio Ministério das Cidades, ao qual está vinculado o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), reconhecer que "não pode ter proibição o que não está previsto na restrição", como destaca o porta-voz Marcier Trombiere, a possibilidade de usar o "bluetooth", ou "hands free", acaba causando confusão. Para especialistas do setor, juridicamente não se pode relativizar uma norma. Em vários países da Europa, há leis claras que proíbem o aparelho celular, mas permitem o "hands free".

Na prática, a autoridade do trânsito não tem como autuar quem fala com as mãos no volante. Esse motorista pode estar numa ligação telefônica ou cantando, treinando a voz, fazendo exercícios de curso de idiomas em CD ou até falando com o passageiro.

"É importante entender que falar ou ouvir é completamente diferente de discar ou segurar um telefone", destaca Carl Johan Almqvist, diretor de produto e segurança de trânsito da matriz da Volvo Caminhões, na Suécia. A análise das causas de distração em acidentes é motivo de constante pesquisa na Suécia. Segundo Almqvist, já foram constatados, por exemplo, vários casos de colisões pouco tempo antes de o motorista chegar em casa. Normalmente quando se está próximo ao destino a concentração tende a ficar reduzida porque o condutor provavelmente conhece a região e, assim, negligencia o comportamento seguro por estar cansado ou ansioso para chegar.

No caso do celular, o maior problema está nas inúmeras funções que foram sendo agregadas a um aparelho que originalmente só servia para telefonar. Não existe nada mais perigoso, segundo concordam, em unanimidade, especialistas de todo o mundo, do que digitar mensagens de texto. Trata-se de um movimento que vai totalmente contra o princípio básico para dirigir com segurança, que é manter os olhos na via e as mãos no volante.

As chances de bater o veículo enquanto se digita uma mensagem aumentam em 23,2 vezes em relação a uma condução correta, segundo um estudo que a National Highway Traffic Safety (NHTSA), a agência de segurança viária do governo dos Estados Unidos, realizou, há três anos, em simulações com caminhões. Outros testes, realizados pela Virginia Tech Transportation Institute, nos EUA, em 2009, mostraram que usar celular na mão equivale a dirigir embriagado.

No caso da pesquisa da NHTSA, digitar algo, sejam torpedos ou e-mails, aparece como uma ação muito mais perigosa do que diversas outras ações também arriscadas, como arrumar o chapéu na cabeça, ajustar uma joia, mexer em instrumentos do painel, tentar apanhar algum objeto ou ler.

Quem vive em congestionamentos pode até achar que em alguns momentos o tempo é mais do que suficiente para abrir um jornal ou passar o batom sem riscos. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou, no ano passado, velocidade média de 18 quilômetros por hora, no horário de pico, nas vias monitoradas em São Paulo

Além disso, no Brasil nem todos têm acesso ao "bluetooth". Acionado por um botão no próprio volante do carro, o dispositivo é equipamento de série somente em modelos luxuosos, importados na maioria. No caso dos nacionais, várias marcas também ofereçam a facilidade mesmo em carros populares. Mas, muitas vezes, é preciso paciência para encomendar o carro com o sistema, nem sempre disponível no mercado. Além disso, o item quase sempre faz parte de pacotes com outros opcionais.

Sistemas de navegação embutidos no painel, que funcionam por voz, são encontrados em modelos de luxo. Mas, na maioria das vezes, esses comandos não reconhecem o idioma português.

A ausência da tecnologia não pode, no entanto, servir de desculpa para descuidos com a segurança na direção. Por isso, recomenda-se estacionar o veículo se houver necessidade de usar as mãos para ligar celular ou ativar o GPS. O mesmo procedimento é indicado por especialistas se o condutor perceber que o teor da conversa, mesmo no sistema "hands free", poderá distraí-lo. Os fatores de distração não seguem uma regra. Dependem de bom senso.

A Audi trabalha para implantar no Brasil nos próximos meses a comunicação de dados por rede sem fio (Wi-Fi) dentro do carro. "Tecnicamente, isso já é possível; estamos tratando agora da homologação e compatibilidade", afirma o gerente de produto da Audi no Brasil, Felipe Gomes. No caso, um cartão 3G, como o usado hoje nos celulares, poderá ser inserido no próprio veículo. Assim, o carro vai se transformar numa espécie de roteador, permitindo o uso de notebooks ou tablets pelos passageiros e pelo motorista - depois de estacionar o carro, claro! Dispositivos como esse auxiliam, ainda, na conexão a programas de busca de endereços como o Gloogle Earth.

A BMW prepara-se para lançar no Brasil a conectividade como ferramenta de manutenção. No caso, o motorista não precisará mais se preocupar com troca de óleo, pastilhas ou filtros. O concessionário escolhido por ele será avisado "pelo carro" e tomará as providência para encomendar as peças e entrar em contato com o cliente para agendar a troca.

Na Europa, dispositivos instalados no carro já servem também para acionar serviços de emergência, como socorro mecânico ou até hospital. A conexão é programada para funcionar a partir de alguma ação repentina no sistema de segurança, como airbags inflados numa colisão, por exemplo.

Mensagens no painel sugerindo ao motorista fazer uma pausa para um café já aparecem em alguns modelos vendidos no Brasil. No caso, o sistema é acionado quando o volante permanece na mesma posição por muito tempo. Mas na Europa começou a ser desenvolvido um dispositivo com a mesma finalidade, acionado a partir da leitura da íris do condutor. "Cada vez mais o motorista vai se tornar passageiro", destaca o gerente de vendas da BMW, Celso Fogaça.

A demanda por entretenimento também movimenta a indústria. Carros da Mercedes-Benz vendidos no Brasil já oferecem conexão com TV digital, com monitor acoplado ao painel, que desliga a imagem quando a velocidade atinge cinco quilômetros por hora. A imagem volta a aparecer quando o carro para.

No caso da Classe S, o equipamento é ainda mais sofisticado. Funciona com uma diferença ótica que bloqueia a imagem para o motorista, mas a mantém visível, no mesmo monitor, para os demais passageiros. "Nossos cliente são grandes conhecedores da marca. Às vezes temos que explicar que determinada solução ainda não chegou ao Brasil por problemas de homologação", diz o gerente de vendas e marketing da Mercedes-Benz Automóveis, Dirlei Dias.

A Smart, marca da Mercedes-Benz, acaba de lançar na Europa um sistema por meio do qual o Iphone torna-se um computador de bordo, que oferece chamadas telefônicas por voz, coleção de música, internet e sistema de navegação. O kit acompanha um porta-celular, que pode ser fixado no painel - solução que acaba com a angústia de quem não sabe onde acomodar o aparelho dentro do veículo.
E para os que não suportam ouvir o celular tocando sem atender só para dizer que não pode falar naquele momento, o governo federal dá uma mãozinha. Junto com a campanha "Mãos no volante", lançada pelo Ministério das Cidades, foi criado um aplicativo, disponível apenas para smartphones, que dá um aviso. O aparelho não toca e envia mensagem: "Estou dirigindo no momento. Ligo mais tarde."

"Não podemos tratar o celular como vilão, pois ele é muito útil em várias situações, como num acidente. Mas somente com campanhas, fiscalização e formação dos condutores podemos mudar o comportamento", afirma Marcier Trombiere, porta-voz do Ministério das Cidades.

Quando bem utilizada, a conectividade pode trazer muitos benefícios. A Volvo começou a desenvolver conexão de internet pelo rádio do automóvel. Jorge Mussi, o diretor que voltou ao Brasil, só lamenta que isso não estava disponível dez anos atrás. "Escutar uma emissora de rádio brasileira, possível pela internet, era tudo o que eu queria quando morava na Suécia".

sexta-feira, 16 de março de 2012

Acordo define cota para carro mexicano



Por Murillo Camarotto e Eduardo Laguna  - Valor 16/03
De Goiana (PE) e de São Paulo

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, confirmou ontem a adoção de um sistema de cotas móveis para a importação de veículos do México. Pelo acordo, firmado quarta-feira, na capital mexicana, as exportações mexicanas serão limitadas ao valor médio verificado nos três anos anteriores. Em 2012, por exemplo, o volume não poderá ultrapassar US$ 1,45 bilhão, média anual registrada entre 2009 e 2011.

O sistema de importação de autopeças, segundo ele, continua inalterado. "Quando é bom para os dois lados, todo mundo sai satisfeito", disse o ministro do Desenvolvimento, que revelou que o desejo inicial do governo brasileiro era limitar as importações de veículos ao valor fixo de US$ 1,1 bilhão.

Durante o lançamento de uma fábrica de vidros planos no município de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, o ministro afirmou que o acordo visa reduzir o déficit comercial com o México e garantir mercado para as montadoras de veículos instaladas no Brasil. Goiana receberá uma fábrica da Fiat, prevista para ficar pronta em 2014.

"Precisamos garantir que a fábrica da Fiat tenha mercado", disse o ministro, que aproveitou a ocasião para rebater os que apontam um processo de desindustrialização no país. "É verdade que a indústria tem dificuldades, nós reconhecemos. Muitas vezes essas dificuldades são causadas pela concorrência desleal e pela taxa de juros. Mas digo a essas pessoas que visitem Pernambuco", ironizou Pimentel.

Ontem, em São Paulo, a Abeiva, entidade que representa os importadores independentes de automóveis, informou que a participação dos carros mexicanos no mercado brasileiro passou de 2,8% para 6,5% após o aumento do IPI aos veículos de baixo conteúdo regional. A medida atingiu em cheio principalmente as importações de carros produzidos na China, mas também afetou as vendas de marcas europeias e americanas.

Segundo levantamento da associação, 31.920 carros do México foram emplacados nos dois primeiros meses do ano, respondendo por 24,88% das importações de automóveis e comerciais leves. Esse volume foi puxado pelo sucesso de carros que a Nissan - marca que detém 3,27% do mercado brasileiro - traz de fábricas mexicanas, caso dos modelos March, Versa, Sentra e Tiida.

"Veja o que o país perdeu de arrecadação", disse o empresário José Luiz Gandini, representante da coreana Kia no Brasil, e que entregou ontem o cargo de presidente da Abeiva a Flavio Padovan, executivo da Jaguar Land Rover. Ele lembrou que os carros mexicanos não pagam imposto de importação, enquanto os asiáticos, além da alíquota de importação de 35%, precisam agora recolher 30 pontos percentuais a mais de IPI.

"Agora estamos exportando emprego para o México", afirmou Gandini, acrescentando que os carros do México já superam as vendas totais das marcas sem fábrica no Brasil, que somaram 21,79 mil unidades nos dois primeiros meses do ano.

As montadoras instaladas no Brasil importam carros do México para complementar o portfólio de produtos no país. Em geral, são modelos de maior valor agregado, cujo volume de vendas não justifica a produção local.