quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Prefeituras dependentes do setor automotivo divergem sobre IPI

Valor 22/09

O decreto da presidente Dilma Rousseff (PT) que aumentou o Imposto sobre Produção Industrial (IPI) em 30 pontos percentuais para a importação de carros e componentes para automóveis, exceto aqueles produzidos no Mercosul, dividiu as prefeituras paulistas com forte presença do setor automobilístico. O posicionamento não segue a tendência partidária, com críticas de prefeituras do PT e elogios de prefeito do PSDB.

"Proteger a indústria nacional é sempre uma coisa boa, desde que não interfira na competitividade", disse o prefeito de Piracicaba (SP), Barjas Negri (PSDB), que foi ministro da Saúde do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). "Mas se o aumento do IPI for um álibi para as empresas aumentarem o preço do automóvel no Brasil, então não servirá para nada", disse.

A Hyundai começou a construir uma fábrica em Piracicaba este ano e quer iniciar a produção de 150 mil carros em 2012 - portanto, terá de enfrentar o imposto mais caro, que vai até dezembro de 2012, caso não nacionalize 65% do veículo. O prefeito acha que é cedo para avaliar o impacto das medidas do governo na cidade, mas não vê chance de retração porque o investimento é de longo prazo. "A Hyundai será beneficiada pela medida, já que muitos dos concorrentes diretos são importados."

O investimento de U$ 400 milhões da Chery também deve ser mantido em Jacareí (SP), cidade do prefeito Hamilton Mota (PT), apesar das críticas da empresa sobre o aumento do imposto. Segundo o secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico, Emerson Goulart, as reuniões com os representantes da companhia continuam normalmente e eles não dão indícios de desistir do negócio.

O secretário, porém, reza para o cenário não mudar. "Nossa posição é de espectadores, torcendo para que não nos prejudique", afirmou. A empresa pretende produzir 100 mil carros no primeiro ano de funcionamento, em 2013, e criar cerca de mil empregos na cidade, que em troca isentou a fábrica do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) por 20 anos.

Na análise da prefeitura, o governo federal deveria separar as empresas estrangeiras dispostas a abrir fábricas no país das importadoras. "Eles poderiam analisar o caso concreto da Chery, que está se movimentando bastante e é diferente das que só importam, sem perspectiva de produção local", avaliou Goulart.

As cidades do ABC, região conhecida pela força do setor automobilístico, veem a cobrança maior de IPI como importante para proteger a produção nacional. "É claro que uma medida como essa revolta os setores prejudicados. Mas estamos vivendo um desequilíbrio muito grande, principalmente na cadeia produtiva", diz o prefeito Mário Reali (PT), de Diadema, cidade com mais de 2 mil fornecedoras de autopeças.

Mesmo com a alta dependência do ramo automobilístico no orçamento do município, o prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior (PTB), diz que o governo federal pensou apenas no curto prazo ao elevar o tributo. "É óbvio que ficamos satisfeito. Mas acho o reflexo global preocupante, precisamos ver como isso vai impactar os investimentos no país a longo prazo", questionou.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Preços vão subir




Montadora nega congelar preço de carro


FSP 20/09

'Se fizermos compromisso, é cartel', diz presidente da Anfavea; México fica mais atraente com custo de produção menor

Importador se encontra com ministra da Casa Civil e quer acordo antes de recorrer à Justiça contra novo IPI

DE SÃO PAULO

A Anfavea (associação das montadoras) declarou que não se comprometerá em manter o preço do carro nacional congelado, mesmo após a elevação em 30 pontos percentuais do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos importados.
"Não necessariamente o carro nacional vai subir por falta de competição. Até porque a disputa entre os produtos locais é grande", disse Cledorvino Belini, presidente da entidade.
O executivo, que também dirige a Fiat, alegou que desde 2005 o preço médio do carro no Brasil sobe menos que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).
A mudança pode representar reajuste de 25% a 28% nos preços para o consumidor que comprar um carro que tenha menos de 65% de componentes fabricados no país.
A alíquota de IPI variava de 7% a 25%, dependendo da potência e do tipo de combustível. Agora, ficará entre 37% e 55%. Para as empresas que cumprirem a nacionalização exigida pelo governo, não haverá mudança.
Questionado se as montadoras se comprometeriam a manter os preços, Belini afirmou que "se fizermos [esse] compromisso, é cartel". "Com a concorrência, o mercado limita qualquer aumento de preço. O compromisso é as empresas manterem seu '[market ]share' [participação nas vendas]."
O aumento do IPI pode beneficiar a produção na Argentina e, principalmente, no México, devido aos acordos que possibilitam a isenção do Imposto de Importação de 35%, cobrado de chineses e coreanos, por exemplo.
Os acordos têm regras menos rígidas do que aquelas que passaram a valer na sexta-feira, pois a exigência é de 60% de peças produzidas em quaisquer das partes (Brasil, Argentina ou México) para evitar elevação no tributo.
O presidente da Anfavea admitiu que "o México é mais competitivo, mas há toda uma estrutura logística que deve ser levada em conta". Estudo da própria Anfavea aponta que o custo de produção de um carro no Brasil é 60% maior do que na China (usada como parâmetro). No México, é só 20% superior.

IMPORTADOS
Os importadores mudaram a estratégia e decidiram que vão a Brasília pressionar o governo a voltar atrás nos 45 dias para aumento do IPI.
Ontem, o presidente da Abeiva (associação dos importadores de veículos), José Luiz Gandini, se encontrou com a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) em São Paulo e pediu uma reunião para tratar do assunto.
Antes, a Abeiva tinha acusado o governo de ceder ao lobby das montadoras instaladas no país. Para a associação, o prazo dado pelo governo é inconstitucional e deveria respeitar os 90 dias previstos na Constituição para adaptação das empresas à nova alíquota.



Montadoras saem em defesa do novo regime automotivo

Por Eduardo Laguna De São Paulo - Valor 20/09
A Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no Brasil, classificou o novo regime automotivo como uma mudança de paradigma para a indústria automobilística nacional. Para representantes da entidade, o país está saindo de um modelo importador para um sistema tributário que privilegia a produção local. Durante entrevista coletiva ontem, a associação sinalizou com a manutenção dos preços de veículos nos próximos meses e traçou a possibilidade de aumento nos investimentos das montadoras, programados em US$ 19 bilhões no período que vai de 2011 a 2015.

Entre os efeitos do novo regime foram citados o fortalecimento do processo produtivo, o maior equilíbrio na balança comercial brasileira e ganhos de competitividade da indústria nacional.

A entidade informou que as montadoras terão de, trimestralmente, apresentar relatórios ao governo atestando o cumprimento de exigências previstas no novo regime, o que inclui o índice de nacionalização mínimo de 65% das peças. O governo também vai fiscalizar se os fabricantes vão cumprir com o conteúdo de peças nacionais estabelecido.

Cledorvino Belini, presidente da entidade, reconheceu que as medidas são duras para os importados, mas negou que os consumidores serão punidos com preços mais altos, tese defendida pelos importadores independentes de veículos.

Segundo ele, a disputa por participações de mercado continuará segurando os preços, enquanto os fabricantes nacionais se sentirão, com o novo regime, mais à vontade para investir em capacidade produtiva. "O consumidor vai ficar muito mais prejudicado se não houver produção no país", comentou Belini, que, contudo, evitou tratar a manutenção de preços como um compromisso firmado pelo setor. "Se houvesse compromisso de preços, seria um cartel."

Executivos da Anfavea ressaltaram que a exigência de um nível mínimo de nacionalização de componentes também tem impacto na programação das montadoras instaladas no país, que, em virtude do câmbio favorável, estavam aumentando as importações de peças. "Essa obrigatoriedade muda a rota do negócio", comentou Luiz Moan Yabiku Jr., vice-presidente da entidade.

Representantes das montadoras reconhecem que gargalos no setor de autopeças poderão dificultar a nacionalização de alguns componentes, mas consideram que o setor não terá problemas para, na média, alcançar o nível mínimo de 65%. Belini também considerou que aumentos de custos decorrentes da obrigatoriedade de subir o índice de peças nacionais serão compensados por ganhos de escala na produção.

A Fenabrave, que representa as concessionárias, informou ontem que as vendas de veículos novos foi de 151,8 mil unidades na primeira metade de dias úteis de setembro, entre automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, alta de 2,37% ante igual período de 2010.

IPI maior pode frear investimento chinês

Para associação chinesa, "política instável" brasileira levará montadoras a reavaliar construção de fábricas

Para representante de empresas chinesas no país, conteúdo nacional inicial deveria ser de 30%, e não de 65%

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM
FSP 20/09/2011

O aumento do IPI para carros importados reduzirá a quase zero a exportação chinesa para o Brasil e freará os investimentos de montadoras "devido à política instável do governo brasileiro", prevê a Associação dos Passageiros de Carro da China (CPCA, na sigla em inglês).
"Há inúmeras formas de evitar uma disputa comercial. É completamente desnecessário jogar um ajuste abrupto que provoca estragos à confiança mútua", afirmou, em entrevista à Folha, Cui Dongshu, vice-secretário-geral e economista sênior da CPCA, que envolve todas as empresas que atuam no mercado brasileiro.
"Elas [montadoras chinesas] devem dar conta de que estão sob enorme risco de mudanças de política no mercado brasileiro. É provável que sejam reavaliadas decisões sobre construir fábricas no Brasil e sobre a implantação de produção local de peças [conteúdo nacional]."

MAIS TEMPO
O representante da CPCA sugere ao governo brasileiro que encontre uma solução negociada para a importação de carros chineses. Segundo ele, o governo deveria ter "dado tempo suficiente para a nacionalização dos carros chineses até o passo final de 'fabricado no Brasil'".
Uma proporção inicial de conteúdo nacional, afirma, poderia ter sido de 30%, e não os 65% exigidos pelas novas regras de investimento.
Cui prevê "extinção das exportações chinesas em termos de quantidade" para o Brasil, de forma semelhante ao que aconteceu na Rússia, após aumento dos impostos para carros importados.
Pelo menos três montadoras chinesas anunciaram planos de montar fábrica no Brasil: a Chery, a JAC Motors e a Lifan. Outras fabricantes, como a Great Wall e a BYD, estariam avaliando a possibilidade.

PROJETO DE US$ 400 MI
O projeto mais adiantado é o da Chery, um investimento de US$ 400 milhões para produzir 150 mil carros por ano e 4.000 empregos diretos. As obras da fábrica em Jacareí (SP) começaram em julho, com a expectativa de término em 2013.
Procuradas ontem pela Folha, nenhuma das três fabricantes com planos de investimento para o Brasil se pronunciou. Na semana passada, o representante da JAC no Brasil, Sérgio Habib, havia afirmado que o decreto inviabiliza a construção da fábrica. O Brasil é o principal mercado externo para automóveis de passageiros chineses -representou 16% das exportações do mês passado, segundo a CPCA.
A importância do Brasil é notória no caso da Chery: as vendas aumentaram 413% nos primeiros cinco meses do ano em relação a 2010, alcançando 13.605 unidades.
A reportagem procurou o Ministério do Comércio da China ontem, mas não obteve resposta.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Crescem riscos para o setor automobilístico na China


Por Sharon Terlep | The Wall Street Journal

A maior montadora do mundo está passando por alguns buracos na estrada enquanto acelera no maior mercado automotivo do planeta.

A General Motors Co. vai realizar esta semana em Xangai a reunião do seu conselho de administração. A cidade é onde ela tem sua principal joint venture chinesa, com a Shanghai Automotive Industry Corp. É a primeira reunião do conselho da GM a ser realizada na Ásia e apenas a quarta já feita fora dos Estados Unidos. A reunião vai incluir visitas a fábricas e eventos de debate com grupos de empregados.

Mas em meio à toda a pompa e circunstância, as dificuldades de fazer negócio na China estão ficando evidentes para a gigante americana. Um exemplo recente: a GM gostaria de lançar seu modelo elétrico Volt na China. Mas o diretor-presidente Dan Akerson disse que se recusa a compartilhar a tecnologia de veículos elétricos em troca dos generosos descontos que o governo chinês fornece aos compradores, o que impulsionaria as vendas do modelo.

"Existem riscos de tecnologia, riscos de relacionamento, riscos empresariais. Tenho certeza que a China vai fazer o que é melhor para a China", disse Akerson numa entrevista ao Wall Street Journal. "Mas se você ignora a China, o risco é seu."

O atrativo é o crescimento estarrecedor da China. Foram vendidos apenas pouco mais de um milhão de veículos leves no país em 2000. Ano passado, o número atingiu 16,6 milhões, ante 11,6 milhões nos EUA. A J.D. Power and Associates, importante consultoria americana do setor, prevê que o mercado chinês vai atingir 33 milhões de veículos em 2018 - mais que os EUA e a União Europeia juntos. E o baixo custo de produção e mão-de-obra tem garantido margens de lucro suculentas na China.

Tudo isso incentivou as montadoras dos países ricos a engrenar a quinta marcha no país. A Ford Motor Co. planeja construir quatro novas fábricas na China até o fim de 2015, lançar 15 novos veículos e dobrar o número de concessionárias. A Volkswagen AG, segunda maior montadora no país, atrás da GM-Saic, tornou a China o centro de seu plano mundial de expansão. A Hyunday Motor Co., enquanto isso, negocia com o sócio chinês Beijing Automobile Industry Holding Co. para criar uma marca exclusivamente chinesa.

Mas essa euforia já recebeu alguns banhos de água fria. Executivos do setor dizem temer que a corrida para construir fábricas causará um excesso de capacidade no futuro parecido com o que acabou contribuindo para o colapso da indústria automotiva americana. E eles temem a mão pesada do governo chinês, que obriga empresas estrangeiras a ter um sócio local e dividir os lucros com ele para poder fazer negócio na China.

Os planos de expansão da Ford mais que dobram sua presença na China. A montadora ainda não decidiu até que ponto vai agradar o governo em compartilhamento de tecnologia. Se a Ford começar a vender carros elétricos na China, disse uma porta-voz, "vamos determinar no momento apropriado quanto da tecnologia vamos compartilhar com nossa joint venture, se é que vamos compartilhar".

"O potencial da China é incrível mas há restrições significativas para entrar no país e alguns obstáculos e barreiras para realmente aproveitar seu potencial completo", diz Rebecca Lindland, analista da IHS Global Insight. "Pode haver uma implosão se algo der errado e todo mundo tiver apostado na bonança chinesa."

Também há outras pedras no caminho automotivo da China. O crescimento das vendas desacelerou este ano depois que o governo chinês adotou medidas para esfriar a expansão, como um limite para o número de veículos que uma pessoa pode comprar. O Banco de Desenvolvimento Asiático reduziu de 9,6% para 9,3% a previsão de crescimento do país em 2011, embora o número ainda represente uma expansão acelerada se comparado às lentas economias dos EUA e da Europa Ocidental. Os analistas, por sua vez, também reduziram as estimativas de vendas de automóveis na China.

Outro problema: as montadoras chinesas querem uma fatia maior do mercado interno e estão se expandindo rapidamente. As montadoras locais tinham 29% do mercado chinês em 2010, o menor índice de participação do capital interno entre os maiores mercados automotivos, segundo a consultoria AlixPartners. No Japão e na Coreia do Sul as montadoras locais tinham 95% do mercado; nos EUA eram 43%.

E também há o excesso de capacidade. Numa pesquisa recente da KPMG com executivos multinacionais do setor, um quarto dos entrevistados disse esperar que a China tenha 20% a mais de capacidade de produção de automóveis do que o necessário daqui a cinco anos.

Li Shufu, presidente do conselho da Zhejiang Geely Holding Group, maior montadora privada da China, disse que o excesso de capacidade é uma preocupação, mas que sua empresa vai levar adiante mesmo assim a sua expansão. Desde que a Geely comprou a sueca Volvo Cars, da Ford, no ano passado, a montadora sueca já autorizou a construção de uma linha de montagem na cidade de Chengdu, no sudoeste da China, e também tem planos de construir outra em Daqing, no nordeste. A meta da Volvo é vender 200.000 carros na China até 2015. Ela vendeu 30.000 no ano passado.

"Ha marcas demais, empresas demais, e algumas não sobreviverão", disse o diretor executivo da AlixPartners, John Hoffecker.

Akerson, da GM, compara a China atual aos EUA do início do século passado, quando o mercado estava nascendo a todo vapor e empresas do mundo inteiro correram para ele. As empresas competiram para construir fábricas e lançar marcas e modelos para atender à demanda até que havia mais veículos que demanda. Dezenas de montadoras americanas faliram. "Tivemos um boom e um colapso nos EUA e, queira ou não, isso também vai acontecer na China", disse ele.

Akerson está determinado a crescer na China e preparado para investir bilhões nisso. Ele disse que a empresa vai construir três fábricas nos próximos anos e estuda planos de produzir localmente vários modelos da marca de luxo Cadillac para o mercado chinês.

A GM foi uma das primeiras montadoras a entrar no mercado chinês, em 1999. Com a sociedade da Saic e outras joint ventures, a GM é a maior montadora da China, com 13% do mercado. As vendas da montadora no país subiram 5,4% este ano. Mas ano passado elas subiram quase 30%.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Governo eleva IPI para proteger carro nacional


VALOR 16/09

O governo elevou em 30 pontos percentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos (automóveis e caminhões) fabricados no Brasil ou importados. O IPI elevado valerá até dezembro de 2012, mas só será pago pelos fabricantes nacionais que não cumprirem 6 de 11 exigências. As mais importantes são: contar com no mínimo 65% de conteúdo nacional ou regional em 80% dos veículos produzidos no Brasil, e investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D) o equivalente a 0,5% da receita bruta descontada dos impostos. O novo regime do setor automotivo foi divulgado ontem à noite pelo governo.

Todas as alíquotas de IPI cobradas das montadoras terão elevação de 30 pontos percentuais a partir de hoje. Isso quer dizer que os fabricantes de veículos populares, de mil cilindradas, passarão a recolher IPI de 37%, e não mais de 7%, como ocorria até ontem. Aqueles que estão na maior faixa de IPI, os veículos com mais de 2 mil cilindradas, passarão a ter alíquota de 55% de IPI.

Ao adotar o princípio de conteúdo nacional ou regional, o governo garantiu que os veículos importados da Argentina (onde as grandes montadoras instaladas no Brasil também possuem fábricas) possam ser beneficiados pelo "desconto" de 30 pontos na alíquota.

Segundo estimativas da equipe econômica, caso o reajuste na tabela do IPI seja integralmente repassado ao preço final, os veículos ficarão 25% a 28% mais caros. No entanto, esse preço não deve ser sentido pelo consumidor dos veículos produzidos no Brasil porque, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, num primeiro momento, "todas as empresas estão enquadradas" no novo regime. Ou seja, terão direito ao desconto de 30 pontos. O aumento será mesmo sentido nos carros importados por montadoras sem fábricas no país, como as chinesas, ou que apenas montam veículos no Brasil, com forte importação de peças.

O Valor apurou que as empresas do setor têm a partir de hoje 30 dias (e não 60 dias, como afirmou Mantega ontem), para se habilitar junto aos técnicos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Ou seja, as companhias apresentarão ao governo as informações quanto ao grau de conteúdo nacional embutido no veículo, o patamar de seus gastos em P&D como proporção da receita bruta descontada dos impostos e outras nove exigências. O recolhimento do IPI elevado passará a ocorrer em 30 dias, mas ele terá efeito retroativo, ou seja, as empresas que não cumprirem as metas deverão pagar o IPI devido nos 30 dias anteriores a 16 de outubro.

Das 11 exigências definidas entre o governo, empresários do setor e centrais sindicais, 3 são específicas para os fabricantes de caminhões. Isso significa que para os fabricantes de automóveis basta cumprir cinco de oito premissas para evitar o IPI elevado.

O novo regime automotivo tem o claro intuito de reduzir o ímpeto de ingresso de veículos importados, que, segundo uma fonte do alto escalão da equipe econômica, tem sido "crescentemente massacrante". Segundo essa fonte, o incremento das importações gera entusiasmo, num primeiro momento, por reduzir os preços praticados internamente. "Mas já passamos dessa fase há muito tempo, o que ocorre hoje é a desarticulação de uma cadeia crucial ao desenvolvimento tecnológico e ao emprego do país."

Ao anunciar as medidas ontem, Mantega foi enfático: "O mercado brasileiro está sofrendo um forte assédio do exterior. Nosso consumo vem crescendo e vem sendo preenchido fundamentalmente por importações". Na apresentação das medidas, ao lado dos ministros do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e de Ciência, Tecnologia e Inovação, Aloizio Mercadante, Mantega fez uma sinalização aos sindicalistas. "Corremos um sério risco de estar exportando empregos para outros países [com o atual ritmo de crescimento do volume importado]".

O auditório da Fazenda estava lotado com a presença de sindicalistas de três centrais (CUT, Força Sindical e CTB), e empresários da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos (Abeiva). Se agradou sindicalistas e parte do empresariado, o governo contrariou os importadores.

José Luiz Gandini, presidente da Abeiva e da Kia Motors, interrompeu a apresentação dos ministros para dizer, com voz elevada, "que nós [os importadores] representamos apenas 6% da indústria brasileira, vocês estão exagerando". Gandini foi acalmado por empresários.

Segundo Mercadante, as medidas não representam um ataque aos importadores. "Esse país tem espaço para a importação, mas não pode comprometer o estímulo a inovação e ao emprego nacional", disse o ministro, "por isso, para aquele que investir em P&D [pesquisa e desenvolvimento] e apostar no conteúdo nacional, o imposto será menor".

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Toyota está pronta para retomar liderança

Valor 13/09

A Toyota está pronta para disputar de novo a liderança mundial do mercado de carros, depois de dois duros golpes causados pelo terremoto no Japão e por uma crise de imagem nos Estados Unidos. Quem faz a aposta é o professor Jeffrey Liker, da Universidade de Michigan, autor do bestseller "O Modelo Toyota", um dos maiores estudiosos da estratégia de gestão da empresa. "A Toyota estará de volta em outubro", afirma Liker, que participa hoje e amanhã de uma conferência no Brasil organizada pela Qualiplus Consultoria Empresarial.


A Toyota certamente perderá a liderança em vendas neste ano, devido ao terremoto. "Não precisa ser doutor em matemática para saber que, depois de a produção ser prejudicada por seis meses, eles vão perder a liderança", afirma Liker. Mas hoje, afirma, a Toyota já têm acesso a todas as peças de que precisa e, agora, está recompondo os estoques nas revendedoras. Há grande expectativa em torno do lançamento de um novo modelo do Camry nos EUA em outubro, cujas versões anteriores fizeram sucesso no disputado segmento de carros de médio porte.

O terremoto ocorreu no exato momento em que a Toyota emergia de uma crise de imagem nos EUA. Um acidente causado em 2009 pela aceleração súbita de um modelo Lexus levou os americanos a questionar a segurança dos carros. Mas, depois de muita exposição negativa na imprensa e de um depoimento do presidente da montadora, Akio Toyoda, no Congresso americano, descobriu-se que não havia nada de errado com os carros da Toyota.

O terremoto e a crise de imagem, porém, expuseram fragilidades como a concentração excessiva das decisões e do processo produtivo no Japão. Durante a crise de imagem nos EUA, os executivos locais não deram uma resposta mais rápida porque esperavam orientação da matriz. No terremoto, a Toyota não encontrou fornecedores alternativos de peças porque sua produção é bastante concentrada no Japão.

Haveria algo errado com o modelo Toyota? "Não existe nada no modelo Toyota que possa causar esses problemas", afirma Liker. A filosofia da montadora, afirma, prevê lidar abertamente com os problemas e se adaptar às culturas e legislação locais. "O problema é que eles não seguiram o modelo Toyota." Toyoda, descendente dos fundadores da empresa, elegeu entre as suas prioridade voltar para os princípios básicos do modelo Toyota.

Uma das lições que a Toyota aprendeu com o terremoto, afirma Liker, é conhecer melhor os seus fornecedores. Quando o desastre interrompeu o suprimento de peças, a montadora japonesa descobriu que não conhecia todos os integrantes de sua cadeia produtiva. Havia contatos com os fornecedores diretos, mas nem sempre com os fornecedores dos fornecedores.

Hoje, a Toyota já tem um mapa de seus fornecedores diretos e indiretos e, agora, está atuando para minimizar os riscos de rupturas. Outra lição, afirma Liker, foi adotar peças padrões para um número maior de veículos, em vez de componentes que servem para poucos modelos.

Muitos veem a excessiva concentração da produção da Toyota no Japão como um problema, sobretudo com os altos custos de mão de obra e o iene valorizado. Liker mostra que há algum mito nisso. Nos Estados Unidos, por exemplo, a montadora é a que tem o maior conteúdo local. Mas é fato, reconhece Liker, que a Toyota produz bastante no Japão.

"Essa é uma decisão de negócio", afirma Liker. "Eles se sentem leais ao país, cuja economia atravessa momentos difíceis em parte porque empresas locais estão transferindo suas fábricas para países com custos mais baixos de mão de obra." No caso do terremoto no norte do Japão, afirma o professor, o senso ético da Toyota falou mais alto - e a companhia manteve operações na região.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Estoque de veículos continua subindo e atinge 37 dias em agosto


Valor 09/09

O aumento na atividade das montadoras para patamares históricos agravou a situação dos estoques de veículos, que alcançaram no mês passado o giro mais alto desde o pior momento da crise financeira de 2008.

Segundo a Anfavea, entidade que abriga as montadoras, agosto fechou com 398,79 mil veículos parados nos pátios da indústria e das revendas, o que equivale a um giro de 37 dias - um a mais que no mês anterior. A rotatividade não chega a um patamar tão negativo desde a crise, quando o giro atingiu 56 dias em novembro de 2008.

O maior acúmulo de estoques refletiu o recorde na produção em agosto, de 325,3 mil unidades - volume que superou a marca de 318 mil veículos registrada em março de 2010.

Em entrevista coletiva à imprensa, Cledorvino Belini, presidente da Anfavea, tentou justificar possíveis erros na programação da produção de agosto. Na avaliação dele, as montadoras não poderiam desacelerar tão bruscamente a atividade, sob o risco de perder participação de mercado no caso de um crescimento mais robusto das vendas. "É melhor ir ajustando com calma e devagar", comentou o executivo, lembrando que os cálculos de produção também se basearam em um período de consumo mais longo, com dois dias úteis a mais do que julho.

Nesta semana, os esforços das montadoras para adequar os níveis de estoque se intensificaram, com concessões de folgas e férias coletivas aos funcionários em alguns dos principais parques produtivos do país. O exemplo mais notório é a interrupção por quatro semanas - a partir de segunda-feira - na produção da fábrica da Ford em Camaçari (BA).

Nos últimos dois meses, contudo, a General Motors, em Gravataí (RS), e a Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP), já haviam suspendido alguns sábados de produção extra. A GM também deu férias de duas semanas para 300 de seus funcionários em São José dos Campos (SP) em agosto. As iniciativas, no entanto, não evitaram o aquecimento da indústria em agosto.

Belini considerou "natural" a busca por uma desaceleração no ritmo de produção, dada a necessidade de o setor ajustar seus estoques - que geram um custo financeiro para as empresas - e se adequar a um mercado que avança mais lentamente. Por outro lado, lembrou que a indústria automobilística chegou a enfrentar um período mais crítico na época da crise financeira, quando os estoques se aproximaram dos 60 dias.

O presidente da Anfavea descartou o risco de corte de vagas de trabalho. Houve um aumento de 0,6%, para 144,7 mil pessoas, na ocupação das montadoras na passagem de julho para agosto.

As principais projeções da Anfavea seguem as mesmas, apontando crescimento de 5% do mercado e de 1,1% na produção.

De janeiro a agosto, as vendas de veículos no país cresceram 8%, para 2,37 milhões de unidades, enquanto a produção cresceu 4,4%, totalizando 2,34 milhões de unidades. Uma revisão das metas só deverá ser considerada no último trimestre.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fábrica da Ford na Bahia vai parar por quase um mês


Correio da Bahia 06/09

A unidade baiana fabrica os modelos Fiesta e Eco Sport, num volume de quase mil carros por dia; com a paralisação, cerca de 30 mil carros deixarão de ser produzidos


Com o pátio abarrotado, a produção de veículos na fábrica da Ford, em Camaçari, vai parar por quase um mês. A partir da próxima segunda-feira, os cerca de 11 mil funcionários do complexo entrarão em férias coletivas e só retornarão ao trabalho em 10 de outubro. Com isso, cerca de 30 mil carros (Fiesta e Eco Sport) deixarão de ser produzidos no estado.

Procurada pelo CORREIO, a Ford confirmou a suspensão da atividade na fábrica baiana. Numa nota breve, enviada pela assessoria de imprensa, a empresa justificou que a medida foi tomada “a fim de ajustar os estoques à demanda do mercado”.

Na semana passada, o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Sérgio Reze, já havia demonstrado preocupação em relação aos estoques de veículos nas concessionárias em todo o país. Em agosto, eles já representavam 40 dias de venda, enquanto o normal seria entre 21 e 22 dias. “Depois desse limite, a saúde financeira da concessionária pode ser afetada devido ao custo elevado de se manter os estoques”.


O especialista em mercado automotivo, Pedro Kutney, explica que quando isso acontece é sinal de que o mercado está em retração. O motivo, analisa Kutney, estaria relacionado, principalmente, com as medidas de restrição do crédito, implementadas pelo governo federal no final do ano passado.

“Os principais prejudicados foram os compradores de primeira viagem. Eles se afastaram do mercado, com medo dos juros altos”, disse.

Diretor comercial da Indiana, Alexandre Rodrigues se disse surpreso com a decisão da Ford. Segundo ele, a concessionária, que é revendedora da marca, vem mantendo as vendas em ritmo “normal”.

“Houve uma pequena queda, quase insignificante. O estoque está um pouco elevado, mas as vendas continuam boas”, destacou. De acordo com ele, a Ford ainda não havia comunicado à concessionária sobre a decisão.

O diretor regional da Fenabrave, Raimundo Valeriano, discorda que há uma retração no mercado automotivo e disse não entender a decisão da companhia. “No âmbito do varejo, está tudo normal. As vendas continuam em alta e esperamos um crescimento de 10% este ano em relação a 2010”.

Mais paralisações
Além da unidade baiana, a Ford vai interromper as atividades por 10 dias na fábrica de motores e transmissão de Taubaté, em São Paulo, no próximo dia 19. Em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, a produção de caminhões para entre os dias 8 e 16 deste mês, a de carros será interrompida de 5 a 9 de setembro e a estamparia será suspensa de 12 de setembro até 7 de outubro.

A Volkswagen também concederá férias coletivas aos seus funcionários. A empresa aproveitou feriados locais e do 7 de setembro para suspender a produção na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, que fabrica os modelos Golf, Fox e CrossFox.

Enquanto isso, na Fiat, parte dos trabalhadores da fábrica de Betim, em Minas Gerais, emenda, desde ontem, o feriado da Independência e só voltará ao trabalho na quinta-feira. Na General Motors, 300 funcionários voltaram de 15 dias de férias pontuais na fábrica de São José dos Campos, em São Paulo, ontem.

Financiamento cresce menos e calote sobe

O financiamento de carros está crescendo a taxas menores e com inadimplência maior, segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). O segmento fechou julho com saldo de R$ 196,2 bilhões, alta de 14,6% na comparação com julho de 2010, mas abaixo da taxa do ano passado ante 2009, que foi de 18,1%. A Anef atribui a redução do ritmo de crescimento ao impacto das medidas de contenção ao crédito adotadas pelo Banco Central.

Já o número de calotes segue em crescimento, diferente da expectativa da Anef. O saldo de inadimplentes no CDC de veículos para pessoa física, com atrasos acima de 90 dias, que estava em 3,8% em junho, chegou a 4%. Em julho de 2010, o indicador estava em 3,4%.

Para reduzir os estoques de veículos no pátio, a Ford e a Volkswagen vão conceder folgas coletivas a partir desta semana.

Fsp 05/09
Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e Região, mais de 80% dos 5.300 funcionários da Volkswagen na cidade paulista não vão trabalhar hoje, amanhã (6), quinta (8) e sexta-feira (9). Na quarta-feira (7), já não haveria expediente devido ao feriado da Independência. Os dias parados serão descontados do banco de horas.

A montadora também vai paralisar a produção nesta semana na fábrica em São José dos Pinhais (PR), de acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, e em dois dias, na quinta (8) e na sexta-feira (9), na unidade de São Bernardo do Campo (SP), segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A Volkswagen não confirma essas informações, dizendo apenas que "está fazendo uso de suas ferramentas de flexibilidade para ajustar o estoque".

Na Ford, de acordo com a assessoria de imprensa, a parada na produção em Camaçari (BA) vai de 12 de setembro a 7 de outubro.

Em Taubaté (SP), serão aproximadamente duas semanas para 1.300 dos 1.600 empregados da unidade. Os períodos serão diferentes de acordo com a área, englobando os trabalhadores no segmento de transmissão e motores RoCam (19 a 30 de setembro), fundição (26 de setembro a 14 de outubro) e motores Sigma (5 a 14 de outubro).

Em São Bernardo do Campo (SP), também haverá escalonamento para as linhas de caminhões (8 a 16 de setembro), carros (5 a 9 de setembro) e estamaparia (12 de setembro a 7 de outubro).

Na unidade da Fiat em Betim (MG), parte dos empregados --o número exato ainda não foi divulgado pela assessoria de imprensa-- não vai trabalhar hoje e amanhã (6), dias que antecedem o feriado, para regular os estoques e manutenção dos equipamentos.

Já os 300 funcionários da GM em São José dos Campos (SP), que tiveram férias coletivas por duas semanas, voltaram ao trabalho hoje. No período, a empresa deixou de produzir 1.500 veículos.

Na unidade de Gravataí (RS), a montadora suspendeu dois sábados de produção em agosto e um em setembro. O sábado de produção marcado para o próximo dia 24 está mantido.

ESTOQUES

Os dados de agosto com relação a nível de estoque nas concessionárias e na indústria só serão divulgados na próxima quinta-feira (8) na coletiva de imprensa da Anfavea (associação das montadoras).

Os números de julho já apontavam o excesso de veículos nos pátios, chegando ao equivalente a 36 dias de vendas, o maior tempo desde junho do ano passado, quando atingiu o mesmo patamar.

Em entrevista na sexta-feira passada (2), o presidente da Fenabrave (federação das concessionárias), Sergio Reze, disse que o nível de estoques nas lojas está chegando "ao limite". "Nossa grande preocupação é saber qual será o movimento de produção das montadoras. Está complicado", acrescentou.

Para ele, propagandas levando o consumidor a acreditar que o desconto oferecido em determinado produto vai vigorar só naquela semana ou naquele feirão não surtem mais efeito porque há "liquidações diárias".

NOVO RECORDE

Apesar disso, as vendas de veículos novos, que englobam automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões, bateram mais um recorde para meses de agosto (327,4 mil unidades) e no acumulado do ano (2,371 milhões), com acréscimo de 4,7% e de 8,0% sobre igual período em 2010.

Considerando apenas os emplacamentos de automóveis e comerciais leves, a Fiat ocupa a liderança do mercado nos oito primeiros meses do ano, respondendo por 22,44% do total de licenciamentos, seguida de perto pela Volkswagen (20,66%). Na terceira colocação aparece a GM (18,39%), à frente da Ford (9,42%) e da Renault (5,12%).